Dez 29

Leonardo Bianchi

Jornalista e mestre em administração. Professor de Gestão, empreendedorismo, marketing, comunicação e inovação
 

Por que os bons morrem cedo? Por que muitas empresas não conseguem segurar os talentos? Acho que a primeira pergunta é saber se as empresas querem reter os melhores. Entre a retórica e a prática existem enormes gaps. Gênios são criativos, possuidores de muitas ideias, querem colocar muitos projetos para andar concomitantemente, fazem muita gente trabalhar, isto cansa. Alguém discorda?

Estes pensadores, usualmente chamados de “fora da caixinha”, são, em sua maioria, "petulantes". Onde já se viu argumentar com o chefe? Imagina, estudar mais que o big boss e ainda ter o atrevimento de questioná-lo. Perguntar o porquê de fazer pelo jeito mais difícil, se há um modo mais fácil. As empresas sabem que precisam destes profissionais, mas não gostam deles, nem os toleram! Prova disto é que poucas empresas têm gênios em cargos de chefia, salvo as de tecnologia e inovação, podemos contar nos dedos, usando a mão do ex-presidente Lula, as que gostam de talentos.

Talentos só são bem vindos em palestras, o RH ainda não sabe lidar com este perfil, muito menos a chefia direta!

Acredito que os talentos precisam procurar novos lugares, empresas onde se cultiva criatividade, espaço em que os diretores, estes intermediários que empatam qualquer foda, também sejam talentosos, tarefa difícil. Por enquanto, ninguém quer um gênio. Diretor talentoso tem equipe talentosa. Já diretor porqueira, este tem equipe bem mais ou menos.

A ingrata vida de um trainee

Já percebeu que é questão de tempo para o trainee tomar um chute na bunda? Tão certo quanto ser trainee, é ser demitido por ter sido trainee. Se você conhece alguém que tenha sido trainee, pergunte a ele o porquê o demitiram. A resposta não será muito distante de: “excesso de criatividade”. Mas a empresa alegou que é porque ele não chega na hora, é desorganizado, trabalha de um modo estranho, é arrogante. Os “talentos” sempre são chamados de arrogantes, na melhor da hipótese, de atrevido por não chamar o presidente da empresa de “mestre, digníssimo senhor, doutor, magnificência” e mais uns dois outros três títulos que o presidente merece. Vice-presidente e diretores podem ser chamados só de “doutor”.

Já que somos provincianos e precisamos mostrar poder em cima dos talentos, vamos levando com a barriga nossas empresas e o nosso mercado. Sem partidarizar, a Dilma é um exemplo disto! Já imaginaram como seria um gênio talentoso, desinibido, sem papas na língua, assessorando a Dilma?

E são tantas Dilmas por aí....

Nas empresas sobram pessoas como a Dilma em cargos de chefia, alias, é o que mais se vê. Em um país como nosso, pobre, sem educação, que empresas enriquecem pagando propina para servidores públicos, não importa ser bom ou não. Importa o quanto se é querido pelo chefe, ai tem que ser bajulador. Neste caso, o gênio não serve. E que se dane a qualidade do serviço, em Belo Horizonte, em plena Copa do Mundo, um viaduto caiu! Pasmem... um viaduto desabou. Se isto aconteceu e ninguém, até hoje, foi preso ou punido, não há um motivo racional que explique a necessidade, neste caso, da contratação de um engenheiro talentoso, pelo menos mediano. No fundo, sabemos que qualquer porqueira serve, até os que derrubam viadutos ou passarelas, como no RJ. 

Alguém discorda?

 

 

Dez 25

Celso Ming e Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2018 

 

Mais gente rodando com carros compartilhados pelas ruas das grandes cidades.

Essa começa a ser a lógica pretendida pelas montadoras nas metrópoles. O primeiro passo para o uso de veículos de terceiros foram os aplicativos de transporte, como Uber, 99 ou Cabify, que possibilitaram encontrar um carro apenas com toques no celular. Agora, iniciativas de compartilhamento de veículos se consolidam na Europa e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, começam a rodar seus primeiros quilômetros.

A denominação para isso, em inglês, é carsharing. É o sistema que permite o uso do mesmo veículo por várias pessoas, em períodos alternados, similar ao que acontece com as bicicletas nas grandes cidades. O interessado localiza o veículo por meio de um aplicativo. Com o mesmo aplicativo (sem necessidade de chave de contato), ele o desbloqueia e o conduz ao destino pretendido, onde o deixa estacionado para que novo interessado o use. O aluguel e o preço da corrida são calculados por tempo de uso e distância percorrida. A cobrança é feita por uma conta virtual ou pelo cartão de crédito.

 

As estatísticas jogam a favor do crescimento desse mercado, que deve chegar a 36 milhões de usuários no mundo até 2025, como projeta a consultoria Frost & Sullivan (veja gráfico). É muita coisa para um mercado global que hoje é de 44 milhões de veículos por ano. E é o início do que pode vir a ser uma nova cultura.

 

Estudo da Universidade da Califórnia demonstra que cada veículo compartilhado pode tirar até 13 outros das ruas. Esse potencial de redução de congestionamentos vem se transformando em atrativo do carsharing nas políticas de mobilidade urbana. Levantamentos realizados na União Europeia estimam que o custo dos congestionamentos alcança por lá cerca de € 100 bilhões por ano. Daí a necessidade de enfrentá-los.

Como as grandes cidades estão cada vez mais atravancadas, a ponto de tornar inevitáveis as restrições à circulação de veículos, as montadoras também entenderam que o carsharing pode ser boa saída para garantir um mercado ameaçado de exaustão.

O modelo já virou estratégia de negócios das montadoras. Exemplo disso é a alemã BMW que, ainda em 2011, criou o programa DriveNow e espalhou seus carros por Munique, Berlim, Düsseldorf e Colônia, além de São Francisco, nos Estados Unidos.

No Brasil, o conceito está em fase de testes, mas cresce com a atuação de startups. Já estão cadastrados no sistema cerca de 8 mil veículos e 230 mil usuários, a maioria em São Paulo.

No entanto, se lá fora o cenário é otimista, no Brasil a popularização do carsharing pode levar mais tempo. Felipe Barroso, criador da Zazcar, empresa de carsharing, observa que, por paradoxal que pareça, uma oferta melhor de transporte público contribuirá para a expansão do sistema: “Quanto mais as pessoas perceberem que estarão bem servidas sem carro próprio, mais o carsharing terá condições de se desenvolver”.

Mas apenas investir na integração dos meios de transporte é insuficiente. Faltam, por exemplo, vagas nas ruas e nos estacionamentos para uso exclusivo desses veículos, condição essencial para o sucesso do carsharing. Sem elas, fica difícil apanhar e devolver o carro em qualquer ponto. O plano diretor do Município de São Paulo prevê essa destinação, mas a criação de vagas depende de legislação própria.

Elias Souza, sócio da consultoria Deloitte e especialista em infraestrutura, governo e serviços públicos, adverte que é preciso mais para aumentar a eficiência da mobilidade urbana e estimular a adoção do carsharing no Brasil. “O veículo compartilhado poderá ser isento da obrigação do rodízio municipal e do IPVA?” – pergunta.

Ainda assim, Felipe Barroso, da Zazcar, entende que o modelo de negócio de sua empresa superou a principal barreira. “Os governos passados estavam interessados em puxar pelo crescimento da indústria e, por isso, estimularam a compra de veículos com fartura de crédito e juros baixos. Mas as dificuldades de movimentação pelas grandes cidades aumentaram tanto, que muita gente está repensando seus hábitos de consumo. Passou a dar mais valor ao uso do veículo do que à posse.”

E uma das consequências dessa mudança é que o carrão da família está deixando de ser símbolo de status, novidade que mais cedo ou mais tarde terá impacto também na publicidade. 

Nov 12

No novo mundo do Trabalho, as funções do Ministério têm mesmo de ser repensadas e o sistema sindical perde sentido

Celso Ming, O Estado de S.Paulo 

 

Duas informações de natureza distinta, interpretadas por ângulos também distintos pelos veículos de comunicação, apontam para uma realidade nova, em parte já analisada nesta Coluna em outras oportunidades. Trata-se da revolução na área do emprego, que acontece não só no Brasil.

Primeira informação: o presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou que extinguirá o Ministério do Trabalho e distribuirá suas atuais funções por outros ministérios. Segunda informação: pesquisa do IBGE mostrou por meio dos levantamentos da Pnad Contínua que, em dois anos, os sindicatos perderam 1,5 milhão de associados. A nova realidade mostra que apenas 14,4% dos trabalhadores estão sindicalizados.

É um equívoco atribuir o fim do Ministério do Trabalho, depois de 88 anos de existência, apenas a medidas de contenção de despesas ou a mais uma decisão retrógrada do presidente eleito. Criado em 1930 para defender os interesses do trabalhador, esse ministério pouco tem realizado além de fornecer empregos para funcionários públicos, coordenar o reajuste do salário mínimo, cuidar da distribuição de carteiras de trabalho e executar outras tarefas, em geral burocráticas. Alguém consegue apontar realização mais relevante para o interesse público do que essas nos últimos 40 anos?

 

A queda das filiações a sindicatos tem a ver com as grandes transformações na área do trabalho em todo o mundo. A população já não quer propriamente emprego. Quer ocupação remuneradora, de preferência sem patrão. Ou seja, o trabalhador está buscando atividades por conta própria, em que ele mande em si mesmo ou, até mesmo, para a qual possa contratar outras pessoas.

As igrejas evangélicas têm empurrado seus fiéis para essa emancipação e para a busca autônoma de renda. Coincidentemente, os aplicativos digitais vêm criando novas oportunidades, especialmente no setor de serviços.

Ao mesmo tempo, a revolução tecnológica vai dispensando cada vez mais mão de obra. Mesmo com crescimento da atividade, a indústria não vai mais admitir funcionários na mesma proporção em que admitia há alguns anos. A forte robotização, o emprego crescente de Tecnologia da Informação e a revolução proporcionada pela indústria 4.0 estão dispensando mais e mais pessoal.

Enquanto isso, o varejo está se estruturando em novas modelagens, em que os antigos pontos de venda passam a ser apenas show rooms, os vendedores se transformam em tomadores de pedidos, os estoques são unificados em grandes centros de logística. Bastaria agora que uma Amazon passasse a distribuir jeans pela internet para que uma enorme cadeia de lojas de confecção perdesse fatias importantes de mercado.

Enfim, milhões de postos de trabalho vão desaparecendo ou sendo reciclados e, no processo, empurram os antigos empregados para atividades fragmentadas e/ou temporárias, que nada têm a ver com a relação de emprego tal como conhecemos. De cambulhada, ajudam a afundar as finanças da Previdência Social, porque se perdem as contribuições do empregador e, também, as do trabalhador.

Nessa nova cultura, ainda incipiente e altamente mutante, as funções do Ministério do Trabalho têm mesmo de ser repensadas e o sistema sindical perde sentido.

O fim da contribuição sindical obrigatória nada tem a ver com essa onda de desfiliação. Até porque a maioria dos sindicatos no Brasil havia se transformado em meros coletores de imposto sindical, que serviam mais para perpetuar a cartolagem de aproveitadores sindicais do que para defender os interesses do trabalhador.

As esquerdas tradicionais e cada vez mais míopes tendem a ignorar essas transformações. É uma das razões pelas quais continuam girando em falso como parafusos que perderam a rosca.

Nov 05

Ana Carla Abrão Costa*, Armínio Fraga** e Carlos Ari Sunfeld***, O Estado de S.Paulo

 

Já passou da hora de promover a reforma da administração pública brasileira. Desde 2013, a população clama por mais eficiência dessa máquina e por mais qualidade em seus serviços. Dentre as demandas legítimas, incluem-se melhorias em educação, saúde e segurança, cruciais em um país tão desigual. O Brasil ostenta a terceira pior distribuição de renda do mundo. Mais da metade da população depende do Estado para acessar condições melhores de vida. Só a educação de qualidade pode permitir que os filhos de famílias pobres atinjam níveis de renda superiores aos dos seus pais. Só o atendimento de saúde gratuito e adequado garantirá dignidade aos cidadãos que não possam pagar por planos privados de saúde. São também os mais pobres que dependem de um sistema eficiente de segurança pública, para evitar que os filhos sejam cooptados, ou mortos, pelo crime. 

Afora motivações de caráter distributivo, a reforma da máquina pública se justifica pela urgência em melhorar a produtividade da economia, estagnada há 20 anos, tendo inclusive caído recentemente. Não haverá como o Brasil crescer e gerar empregos sem elevar a produtividade do próprio setor público. As oportunidades nessa área são enormes e evidentes. A máquina, inchada e cara, falha em entregar serviços adequados em áreas cruciais como educação básica, SUS (apesar do avanço que representou), logística, mobilidade urbana e segurança. De acordo com a OCDE, os índices de satisfação com serviços públicos no Brasil situam-se entre os mais baixos do mundo, principalmente em educação e saúde, onde vêm declinando de forma contínua. 

 

Na tentativa de enfrentar as deficiências, são constantes em todas essas áreas as demandas por mais recursos. Isso se reflete em gastos públicos crescentes há décadas (como proporção do PIB). Os dados são surpreendentes e sugerem uma elevada ineficiência. As despesas com pessoal do Estado brasileiro (em todas as esferas) é alta na comparação com nossos pares na América Latina. De acordo com a OCDE, essas despesas, incluindo benefícios, atingem cerca de 13,3% do PIB (2% mais do que há 10 anos). Na Colômbia e no Chile, estão na faixa de 8,5%, no México, em 9%. Países avançados gastam em média 10,4%. A falta de recursos não parece ser, portanto, nosso maior problema.

Mas chegamos ao limite. O colapso fiscal que vivemos impede que se mantenha a trajetória de crescimento de gastos. A racionalização das despesas é necessária, em especial as obrigatórias, que hoje chegam a 98% do orçamento. 

O Estado brasileiro tem sido incapaz de justificar suas políticas públicas e de avaliar seus resultados. No âmbito da gestão de recursos humanos, cabe destacar que muitas categorias de servidores públicos ganham mais do que seus equivalentes na iniciativa privada. Faltam avaliações adequadas de desempenho desses servidores e também investimentos em capacitação, duas ferramentas básicas para valorizar quem presta bons serviços. E falta cobrar resultados concretos e dispensar quem, por anos seguidos, não tem desempenho satisfatório. 

Sem projeto. O Estado abre vagas sem planejamento e seleciona sem testar competências adequadas à função. Depois promove por critérios formais, de forma automática, e remunera sem vínculo com a produtividade. Em muitos casos, as condições de trabalho são péssimas. Com tudo isso, não há incentivos à oferta de serviços de qualidade. Ou seja, o atual modelo de funcionamento da máquina pública colapsou pelo elevado custo, pela ineficiência e, acima de tudo, pela incapacidade de garantir uma boa gestão de pessoas, principal requisito para a prestação de melhores serviços. 

Uma parte dos problemas está na Constituição de 1988, que adotou o regime estatutário como base do serviço público, fazendo com que a estabilidade nos cargos se tornasse a regra. Mas não é só. A competência legislativa em matéria funcional ficou pulverizada no Brasil pelos três níveis da federação. Assim, milhares de leis federais, estaduais e municipais foram multiplicando os problemas. Esse complexo sistema infraconstitucional, incontrolável, deu margem a que, ao longo do tempo, privilégios, proteções e garantias se tornassem regra. Essas leis – mais até do que a garantia constitucional de estabilidade – são responsáveis por boa parte dos atuais problemas e distorções. 

Tal sistema vem comprometendo os resultados, reduzindo a produtividade e influenciando no crescimento desordenado e vegetativo dos gastos com pessoal. Esse conjunto de leis – piorado pela captura corporativista dos processos internos – fez com que, na prática, o regime dos servidores conferisse proteção e benefícios em excesso, impedindo o uso efetivo de ferramentas de gestão de pessoas. Só no executivo federal, são 309 carreiras distintas, representadas por 267 associações. Em cada Estado esse número ultrapassa uma centena. Basta multiplicar por 27 e somar as carreiras dos 5.570 municípios para se compreender o tamanho do desafio. 

A revisão desse conjunto pulverizado de leis tem de ser, portanto, a chave de uma ampla reforma administrativa brasileira. Sem mexer nisso, será inútil mudar mais uma vez as regras constitucionais da estabilidade, o que já foi feito em 1998, sem resultado prático. 

Dada a autonomia federativa constitucional, essa revisão tem de ser feita nos três níveis da federação. Uma proposta objetiva seria começar pelo governo federal, tendo como primeiro pilar um projeto de lei complementar que estabeleça como regras gerais: 1) a exigência de planejamento global, formal e consistente da força de trabalho como condição para novos concursos públicos e novas admissões; 2) a obrigação de avaliação no mínimo anual do desempenho absoluto e relativo de todos os servidores públicos; 3) a proibição das promoções e progressões automáticas; 4) promoções vinculadas exclusivamente ao desempenho e no interesse do serviço público; 5) promoções condicionadas à existência de vagas no nível superior, as quais têm de ser em número muito limitado. 

Adicionalmente, como segundo pilar, há que se reduzir a complexidade e corrigir de forma definitiva os vícios e a excessiva pulverização de carreiras. Para isso, propõe-se criar nova carreira, de caráter generalista, no serviço público federal, nos moldes de estudos elaborados no Ministério do Planejamento.

Todas as novas contratações deveriam se dar nessa nova carreira, que paulatinamente assumiria as funções das atuais carreiras, terminando por substituí-las. Isso é capaz de corrigir as distorções de remuneração no setor público, alinhando os salários iniciais aos do setor privado e ampliando as distâncias entre estes e os vencimentos finais da carreira. O caráter generalista da nova carreira impediria que argumentos de desvio de função limitassem, como ocorre hoje, a mobilidade dos servidores entre diferentes órgãos ou funções. Nessa nova carreira, também não podem existir progressões e promoções automáticas. 

O terceiro pilar da proposta seria a extensão das soluções acima para os Estados e municípios, que são os principais provedores de serviços básicos e onde os potenciais ganhos de eficiência são ainda mais relevantes. Este é um capítulo bastante desafiador, dada a autonomia desses entes federativos. Essas reformas poderiam ser estimuladas por uma revisão da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Esta lei precisa de urgente ajuste quanto aos conceitos de despesa de pessoal, de forma a incorporar rubricas atualmente ignoradas nos cálculos. Um efeito imediato desse ajuste será tornar clara a realidade: a grande maioria dos entes subnacionais já não cumpre os limites previstos pela LRF. 

Nesse contexto seria razoável a criação de disposição transitória que autorize um período de reenquadramento de 10 anos, autorização essa que poderia ser condicionada à adesão à reforma da função pública segundo os pilares referidos. Como no caso federal, as inúmeras leis estatuais e municipais sobre a função pública teriam de incorporar a avaliação de desempenho, os impedimentos a promoções e progressões automáticas e a sua vinculação ao desempenho, além da obrigatoriedade de estudos de planejamento da força de trabalho como condição da abertura de novas vagas. Da mesma forma, também nesses Estados e municípios, as diversas carreiras seriam substituídas por carreira única, segundo os conceitos expostos acima. 

Finalmente, como quarto pilar, propõe-se uma ampla revisão e fortalecimento dos processos internos de gestão de pessoas, em particular quanto à instauração de processos administrativos disciplinares que, juntamente com as avaliações de performance, deveriam seguir modelos, critérios e obedecer a prazos que garantiriam a efetiva implantação das novas exigências legais. Além disso, dever-se-ia promover ampla transparência para que os resultados pudessem ser acompanhados e também avaliados.

Esforço inicial. Essas são as bases de uma reforma administrativa que poderia alterar de forma estrutural o funcionamento do Estado no Brasil. Embora complexa, dadas a amplitude e a pulverização das leis que ela visa a atingir, a reforma pode ser iniciada antes de qualquer alteração constitucional. De qualquer modo, ela exigirá do governo federal grande esforço de coordenação, sem o que sua implantação no nível subnacional, onde é mais necessária, jamais ocorrerá. 

Se o governo eleito não for capaz de, com clareza e consistência, iniciar a reforma do regime da gestão pública, estará comprometendo o possível sucesso de outras reformas, também urgentes, de que o país precisa para encontrar um caminho sustentável para o desenvolvimento social e econômico.

 

 

 

 

 

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